Tempo de investir.

Boletim 320 - 15 de setembro de 2009

Por Milton Lourenço, presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex)..


Milton Lourenço

Embora prevista em razão da crise financeira mundial, não houve queda em 2008 na movimentação de cargas do Porto de Santos. Houve, sim, um crescimento pífio de 0,7% em relação a 2007, que só serviu para manter uma tendência de crescimento que já vinha por onze anos consecutivos. De qualquer maneira, se houve queda em alguns segmentos, no total, o Porto movimentou mais. Ainda bem.

Houve queda de 30% em tonelagem de exportação, mas crescimento de 15% no valor em 2008 em comparação com o ano anterior. Isso mostra que, se houve redução na movimentação de granéis, mesmo com crise, registrou-se crescimento em carga com valor agregado (conteinerizada).

Já no primeiro trimestre de 2009, a movimentação de cargas cresceu 6,5%, em razão do crescimento do volume das cargas de exportação que atingiu 28,2%, com destaque para os embarques de açúcar e de soja em grãos, que atingiram um crescimento superior a 62% e 136%, respectivamente. Já as cargas de importação apresentaram queda de 27,4%, determinada, principalmente, pela redução nas descargas de adubo (82,1%), hulha betuminosa (21,1%) e trigo (31,2%). Em termos de valores, os resultados apontam um aumento da participação do Porto de Santos na movimentação da balança comercial, que subiu de 25,4% (2008) para 27,7% (2009). Isso ocorreu porque o valor das cargas de exportação movimentadas pelo Porto de Santos apresentou uma redução inferior (17,8%) à verificada no total do País (19,4%).

Portanto, a previsão pessimista de que em 2009 haverá queda na movimentação de cargas, em função da retração mundial, pode não se concretizar, embora seja certo que haverá redução em vários segmentos. O que se pode prever é que teremos pela frente um período em que a infra-estrutura será menos exigida. Será, portanto, esse um momento adequado para que o governo faça um esforço concentrado para ampliar investimentos que fomentem a cadeia produtiva e estimulem os investimentos privados, o que inclui a melhoria da infra-estrutura portuária e rodoferroviária.

Como se sabe, há décadas que a deficiente infra-estrutura de transportes provoca baixa produtividade e, em conseqüência, reduz o poder de competitividade dos produtos nacionais no mercado externo. Outro grande problema é a falta de uma política de renovação e o sucateamento da frota nacional de caminhões e carretas. Atualmente, circulam pelas rodovias e centros urbanos veículos com idade média em torno de 20 anos, que, dotados de tecnologia atrasada, ainda servem para agravar os índices de poluição urbana, além de não oferecer segurança no trânsito e reduzir a rentabilidade das empresas envolvidas na operação logística.

Há outras questões que se afiguram quase insolúveis, tal o receio das autoridades em enfrentá-los, como a elevada carga tributária que onera os produtos, o roubo de cargas generalizado por rodovias estaduais e nacionais, a falta de interação entre os modais rodoviário, aéreo, ferroviário, fluvial e marítimo, o alto valor do pedágio e a restrição aos veículos urbanos de carga no centro da cidade de São Paulo.

Para piorar, até mesmo no Estado mais desenvolvido da Federação a lentidão é marca registrada nas obras de infra-estrutura. É o caso das obras do Rodoanel, rodovia de 170 quilômetros com acesso restrito que contornará a Grande São Paulo num distanciamento de 20 a 40 quilômetros do centro do município e evitará que os caminhões destinados ao Porto de Santos continuem a passar pelo meio da cidade antes de chegar ao sistema Anchieta-Imigrantes.

Em pauta desde a década de 1950 e anunciado à época do governo Fleury Filho (1991-1995), o primeiro trecho do Rodoanel, o Oeste, só ficou pronto em 2002. As obras do trecho Sul começaram em setembro de 2006, ficaram um tempo paralisadas e foram retomadas em maio de 2007. Se tudo correr bem, o trecho Sul ficará pronto em novembro e, juntamente com o trecho Oeste, será responsável por uma redução no tráfego de caminhões de 43% na Marginal Pinheiros e de 37% na Avenida Bandeirantes, segundo projeções de especialistas. É de lembrar que mais de 1,1 milhão de veículos circulam por dia na capital paulista e, desses, 300 mil estão de passagem, enquanto 19 mil são caminhões.

Isso vai significar uma redução de mais de duas horas nas viagens até o Porto de Santos, o que equivalerá a recuperar uma produtividade perdida hoje na faixa de 30 a 40%. Será um alívio, mas não o fim dos problemas.


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